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(Abr.2011)

"QUE TAL UMA SOPINHA ?"


Dina é uma paciente de muito tempo, com uma história muito engraçada que vale a pena ser contada.

Por volta de 1993, ela desenvolveu uma grande lesão na mandíbula, cujo tratamento cirúrgico poderia levar a uma extensa deformidade. Para evitar essa perda óssea que causaria sérios transtornos estéticos e funcionais, discutimos sobre um tratamento conservador, que pouparia parte da mandíbula.

Entretanto para que esse tratamento desse certo, haveria a necessidade de se manter a boca fechada por um longo período, para que não ocorresse uma fratura durante a mastigação. Dina foi bem orientada, e com uma personalidade ótima, sempre firme e decidida, optou pelo tratamento conservador, sabendo que permaneceria com uma alimentação líquida e pastosa por um longo período.

Tudo correu muito bem na cirurgia, a lesão foi controlada mas ela se manteve com sérias restrições quanto à mastigação de alimentos duros. Por isso ela me cobrava sobre a recuperação dos dentes que foram perdidos na primeira cirurgia.

Naquela época, os implantes já eram uma realidade, entretanto para o caso dela, seria necessário um enxerto ósseo para auxiliar a fixação dos mesmos. Dina concordou, retiramos um fragmento ósseo da bacia e fixamos na mandíbula e novamente passou por um longo período de restrições alimentares, só na base da sopinha.

Após seis meses, com o sucesso do enxerto, foi feita nova cirurgia, agora para finalmente realizarmos a fixação dos implantes. Novo período de cuidados mastigatórios e mais sopinha !

Decorridos aproximadamente 3 anos do início do tratamento, Dina finalmente recebeu os tão desejados dentes perdidos na cirurgia. Ficou realmente muito feliz, e em sinal de agradecimento, não apenas me convidou, mas me intimou para um jantar em sua casa.

Aceitei o convite, e num lindo sábado fui até sua acolhedora casa e encontrei um animado grupo de amigos dela já me esperando. Na verdade, Dina havia preparado uma pequena festa e eu era o “convidado especial”.

Num ambiente bastante descontraído, as pessoas estavam dispersas por diversos ambientes internos e externos e logo iniciou-se o serviço, oferecendo-se como pequena entrada, um delicioso “consomeé” , servido em lindas e diferentes xícaras. Tomei tudo e adorei, pois além de muito gostoso, era realmente muito charmoso o jeito como foi servido.

Após algum tempo, as xícaras foram recolhidas, e continuou-se o bate-papo animado; muito embora eu não conhecesse praticamente ninguém do grupo, as pessoas eram tão acolhedoras e simpáticas, que tornavam o ambiente muito descontraído.

Logo depois, as lindas xícaras estavam de volta, agora com novos sabores de cremes deliciosos. Não posso dizer que não tenha achado um pouco estranho, mas o cheiro era tão gostoso e todas as pessoas se serviam tão entusiasticamente que, até por educação, não poderia deixar de prová-las. Mais uma vez saboreei um delicioso creme, agora provavelmente à base de tomates vermelhos. Ao final, todo o serviço foi recolhido e a conversa continuou muito animada.

Passado mais um tempo de espera, eu já estava estranhando que nada mais sólido fosse servido como aperitivo, mas todos os presentes continuavam muito animados e eu deixei isso pra lá. Em seguida, adivinhem o que foi novamente servido ? Mais um creminho, agora talvez de cenoura, em mais um lindo set de lindas xícaras !

Nessa hora, eu fiquei bem encafifado, mas mesmo desconfiado, me servi de outra xícara, e olhei à minha volta: TODOS estavam olhando para mim, esperando a minha reação e quando perceberam a minha hesitação e surpresa em tomar a terceira porção de sopa, não agüentaram e caíram na gargalhada ! Aquilo tudo fora uma encenação, eles não tomavam a sopa, apenas fingiam para que eu a tomasse também !

Dina , morrendo de rir, explicou-me que durante todo o período de convalescença, ela tomou todos aqueles tipos de sopa e portanto estava “se vingando” de mim, fazendo com que eu provasse do próprio “veneno” de passar longos períodos só na base da sopinha. Ri muito, tentei me desculpar, mas ela ao contrário, enfatizou que aquela brincadeira era uma forma de celebração por tudo que havíamos passado juntos, buscando um novo Sorriso para ela.

Comentei que estava achando aquela história muito esquisita, começando a ficar preocupado em estar participando de algum daqueles filmes de suspense hitchcockiano, em que no final eu poderia virar um ingrediente de uma próxima sopa !

Todos riram muito, mas na verdade fiquei realmente sensibilizado pela “homenagem” prestada a mim pela minha querida amiga e até hoje paciente !

Em tempo: Após tanta sopa, degustamos um jantar maravilhoso, cheio de sabor e consistência, pois tanto ela quanto eu podíamos mastigar muito bem !




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(Mar.2011)

"O SOFÁ"
(A importância de seguir as prescrições)

Fernando é um paciente muito querido, assim como todos os membros da sua inteligente, sensível e muito divertida família que freqüentam meu consultório há vários anos. Aproximadamente 40 anos de idade, profissional muito bem sucedido que viaja pelo Brasil todo, com uma agenda muito concorrida que impede que seu tratamento ocorra de forma muito sistemática. Sua esposa e duas adoráveis filhinhas moram no Rio de Janeiro e ele passa parte do tempo lá e outra parte em São Paulo. Depois de desfrutar as benesses da casa da sua telúrica irmã, decidiu que era hora de montar um apartamento em São Paulo. Contou com a ajuda da sua mãe extremamente dedicada e atenta, tanto para a reforma quanto para a decoração do mesmo.

Um dia, houve a necessidade de realizar um implante dentário e para aproveitar a disponibilidade da agenda, foi também programada a extração tardia de um dente do siso (juízo), que não apresentava qualquer função na arcada. Tudo combinado, medicação pré-operatória prescrita, foi orientado que para ter um bom trans-operatório receberia uma dose de um medicamento ansiolítico no consultório, que faria com que ele dormisse no ato cirúrgico e não apresentasse qualquer estresse. Para isso seria importante que viesse acompanhado, pois ao final do procedimento não teria plena consciência dos seus atos, com até lapsos de memória, precisando de direcionamento para chegar em casa e repousar.

No dia da cirurgia, chegou desacompanhado, mas afirmou que sua mãe, que também é minha paciente e que já havia passado por procedimento semelhante viria ao final do procedimento. Tomou o remédio ansiolítico, dormiu como um “anjinho” (e há que se destacar que é uma família com bom relacionamento com os anjos) , os procedimentos foram feitos de forma muito tranqüila e rápida, sendo que ao término, orientei às minhas assistentes que o deixassem dormir o quanto fosse necessário, pois sei o quanto ele andava cansado pela rotina estressante de viagens e trabalho. É importante destacar que nesse momento a mãe ainda não havia chegado, pois tudo foi bastante rápido.

Segui minha tarde de trabalho e depois de mais de uma hora, minha assistente foi até a minha sala onde atendia outro paciente e informou que a mãe já estava lá e que Fernando estava em ótimas condições, pronto para ir embora. Por uma daquelas conjunções astrais típicas das boas histórias, não podia parar meu procedimento naquele momento e por conhecer bem a mãe e ter ótima relação de confiança com todos, reforcei à minha assistente que os liberasse para ir direto para casa e que se houvesse qualquer dúvida me ligassem. Assim foi, ninguém me ligou no pós-operatório e uma semana depois, no retorno, tudo estava ótimo, com comentários de que o pós-operatório tinha sido muito bom, sem nenhuma lembrança da cirurgia ou do que havia acontecido depois. Enfim, um sucesso !

Fernando seguiu sua vida de homem atribulado, com mais viagens e pouquíssimo tempo disponível. Poucas semanas depois, com uma pequena brecha na sua agenda, decidiu ir à uma loja de decorações para comprar um sofá que ainda faltava para a decoração de sua casa paulistana. Na loja, ligou para sua mãe para perguntar sobre as dimensões da parede onde o sofá ficaria. Ao telefone, sua mãe pareceu surpresa, e questionou-o sobre o porquê da pergunta. Fernando disse: “estou aqui comprando aquele sofá que falta para a minha casa”. Sua mãe, perplexa, retrucou: “Como? Você não se lembra de que já compramos esse sofá?” Nesse momento, Fernando atônito disse: “ Compramos ? Quando ???”. “No dia que saímos do consultório do Luciano e você disse que estava bem e queria aproveitar o tempo para comprar o sofá!” , confirmou sua mãe.

Enfim, quando Fernando me contou essa história no consultório, eu não sabia se ria ou chorava, pois a recomendação expressa era de que deveria voltar para casa, mas sentindo-se muito bem, convenceu a mãe a acompanhá-lo até a loja. Com a continuação do relato de Fernando, decidi “chorar de rir”, pois Fernando reiterava que não se lembrava o modelo do sofá, do preço, de que forma havia pago, enfim, completa amnésia sobre o episódio. Quando sua mãe foi questionada sobre o modelo do sofá, ela, não sei se educada ou cinicamente respondeu: “Bonitinho, mas eu não compraria para mim. Mas você foi tão decidido e comprou o primeiro que viu com tanta convicção, que nada podia fazer !”

Eu, mal me contendo de tanto rir, disse que torcia para que o sofá fosse cor de rosa, para que o “castigo” de não ter cumprido a recomendação fosse ainda mais engraçado.

Após várias semanas de angustiante espera, o sofá chegou. Foi colocado na sala e era pequenino demais para o espaço. Mesmo assim, todos os presentes foram polidos e teceram discretos elogios ao mesmo, rindo do episódio. Mesmo evidente uma certa dificuldade em acomodar confortavelmente os presentes, o sofá havia passado pelo primeiro teste.

Numa segunda reunião, poucos dias depois, na qual toda a família paulistana estava presente para saborear as iguarias feitas pelo membro “cordon bleau” do grupo, o desconforto ao sentar no sofá foi explícito e a espontaneidade exacerbada pelas doses divinas do ótimo vinho que degustavam e a generosidade de Fernando, decretaram o destino do sofá: Doado para o zelador, que agora tem um lindo sofá, de uma loja muito chique, enfeitando a sua sala de estar !



Moral da História:

"SIGA AS PRESCRIÇÕES DE SEU DENTISTA", ou

"SE TOMAR DORMONID, NÃO VÁ COMPRAR SOFÁ ! "


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Set.2010

- Tal pai, tal filho (Reportagem publicada na Revista do Esporte Clube Pinheiros )

(clique para baixar o arquivo em formato .pdf )


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